
Fábio França
São José dos Campos
Do outro lado do telefone uma voz mais grave que a Marina de la Riva do disco se identifica como sendo ela. De tom levemente sedutor e descontraído, aos poucos ela vai mostrando como o hiato entre seu primeiro (“Marina de la Riva, de 2007) e o segundo disco (“Idílio”) serviu para que o novo rebento tomasse forma.
Com participações de destaque “Acústico MTV 2″ de Lulu Santos e no festival Telefônica Sonidos – entre outras coisas -, ela conta um pouco sobre a sonoridade do novo disco, fala de família e da volta à faculdade de direito.
De onde surgiu a ideia de pôr como nome do disco uma palavra que equivale a um poema lírico/bucólico? Como isto sintetiza o álbum?
O título da obra é uma coisa muito interessante porque tem que estar dentro da obra sem engessá-la. Passei muito tempo pensando em “Ausência”, que é uma música densa, mas a ausência não sintetizava o disco inteiro. Me deparei com a música “Idílio” e graficamente também caiu muito bem.
Como foi fazer o disco e como você foi construindo ele?
A pré-produção mental começou há muito tempo, mas em estúdio foi muito rápido. Em uma semana fiz 80% do disco. Fiz as músicas em um take só, com todo mundo tocando junto (ao vivo) no estúdio. Gravávamos três takes e escolhíamos um. Todo mundo tem que ficar muito entregue dessa maneira.
Mas ainda achei que faltavam outras cores no disco.
E os arranjos? Você participou deles?
Quando chamo um arranjador, já falo a instrumentação que eu enxergo. Trabalho muito isso na minha cabeça, sou muito visual. Caso contrário é uma perda de tempo.
Marina, e a voz? Como você faz para cuidar dela? Ainda frequenta aulas de canto?
Aí tem uma questão muito engraçada, porque os meus professores de canto sempre ficaram muito confusos com minha extensão vocal. Minha primeira professora de canto tinha um papel colado (em cima das teclas) no piano, chamado “Marina de la Riva”. Eu brinco que sou uma atleta da música porque sou meu próprio instrumento. Me preocupo em me manter. Sempre falo muito grave. Para me cuidar, vou na fono (audióloga). Não faço mais aula de canto porque já tenho minha própria assinatura e não quero alguém que crie vícios em mim.
Na consulta da fono, disse para ela “o que me trouxe aqui foi o Paul McCartney, que nunca baixou um tom em nenhuma música” (risos). A voz envelhece, mas deve ser disciplinada. Aliás, amanhã tenho fono (risos).
Seus discos falam muito de sua memória afetiva cubana, certo?
A minha família paterna é cubana e veio para cá em 74. A minha memória afetiva é de uma família latina muito presente. Morávamos todos juntos em Baixa Grande da Leopoldina (distrito de Campos dos Goytacazes, no Rio de Janeiro) e éramos uma família muito musical. Meu pai era muito musical. Minha avó do lado cubano tocava piano. Aliás, sempre me perguntam se me sinto uma diva e uma vez respondi: “Diva era minha avó” (a materna, que se chamava Diva). Música sempre foi uma linguagem de comunicação e virou um grande caminho na minha vida. Queria estar perto dela de alguma forma.
Como? O que tanto fez para estar perto da música?
Dancei balé, fiz jazz, na verdade queria ser bailarina quando era mais nova. Depois queria biologia marinha, mas resolvi fazer direito. Aliás, voltei para a faculdade de direito (risos).
Mesmo com a carreira bem estabelecida?
Defino como “muito esforço”, mas sim. Só hoje, saí da faculdade, fui para a biblioteca. Estou em dúvida entre abordar direitos humanos ou autorais no meu TCC (Trabalho de Conclusão de Curso, feito ao fim da faculdade). Bom, saí da biblioteca, fui experimentar figurino para o lançamento do disco e agora estou dando entrevistas (risos).

Faixa-a-faixa em comentários de Marina
Ausência
“Esta música é de extrema importância para mim. Por muito tempo, foi o título que imaginei para o álbum, até que mudei para Idílio. Guardo-a desde 2007. Neste disco, pude cantá-la com todo entendimento de que a ausência de alguém pode ser mais viva que a presença de outros”
Dile que por Mi No Tema
“O arranjo é de Pepe Cisneros e a minha versão do tema remete às ruas da melhor Paris na primavera”
Estúpido Cupido
“Amo mambo, e decidi a fazer um neste disco. Estúpido Cupido é uma música jocosa. Pensei que caberia muito bem no ritmo, levei minha ideia para o Pepe Cisneros e ele adorou. A ponte que leva também traz. A música fez sucesso no Brasil, nos anos 60, vinda dos Estados Unidos. Agora nós a devolvemos ao mundo no swing brasileiro-latino. A gravação foi puro sorriso. Naipe de metais da melhor qualidade, piano suingadíssimo do Pepe, baixo caminante, percussa chique, lock out de 15 horas e ela estava pronta. Meu primeiro mambo”
Juracy
“Em 2009, quando ensaiava para gravar meu DVD, Ricardo Valverde, percussionista e estudioso de samba, disse que me emprestaria um disco dele para que eu ouvisse uma referência. Neste disco estava Juracy, lindamente cantada por Robertinho Silva. A partir daí, Juracy passou a ser minha também.”
Muñeca
“Outro arranjo de Pepe Cisneros. Todo suingue do elegante trombone do Raul deSouza e o piano do Pepe na letra mais latin lover e cara de pau do disco, quando o cidadão em questão é pego nos braços de outra mulher e afirma, descaradamente, que é somente diversão sem importância. Para cada latin lover em ação há, do outro lado, uma mulher aceitando-o. Resumo da ópera: “El amor y el interés se fueron al campo un día, y, más pudo el interés que el amor que me tenia”. Muñeca, perdoname!”
Y
“Foi gravada com Daniel Oliva, grande violinista da nova geração. Esta canção me acompanha desde criança, no meu repertório mental, quando a ouvi pela primeira vez no disco de Eydie Gormé com o Trio Los Panchos. Sempre quis gravá-la. Tanto que, no final de “Central Constancia”, do meu primeiro álbum, eu já citava uma de suas frases: “Y que hiciste del amor que me juraste, y que has hecho de los besos que te di?”. A melodia é bela. A letra, uma graciosa forma de cobrar o amor e, ainda, no final, confirmar que está tudo perdoado. Uma graça de música. Leve, doce e cheia de humor delicado”.
Canción de las Simples Cosas
“Gravei em Cuba, em 2009, quando fui para o Festival Boleros de Oro, com dois grandes amigos: Fabián García Caturla e Papi Olviedo. Fabián é um dos maiores baixistas cubanos vivos, trabalhou com o maestro Enrique Jorrin, inventor do chá-chá-chá. Ele simplesmente definiu a linha de baixo do gênero – é a história viva da música cubana! Papi Olvideo toca o tres cubano (instrumento de seis cordas agrupadas em três grupos), é um dos maiores treceros que existe. Adel Gonzáles, percussionista, apareceu lá para me dar um abraço na hora da gravação e acabou participando – inventamos palmas e um ‘abanico’ sutil nos timbales. Estava pronta!”
Voy a Tatuarme
“Música de Amaury Gutiérrez, compositor cubano que, em 2011, ganhou o Grammy Latino de Melhor Cantautor com o álbum ‘Sessiones Íntimas’, do qual participei. Pedi a ele uma música e me presenteou com ‘Voy a Tatuarme’, um lindo guaguancó delicado e moderno. É a música de trabalho do álbum Idílio e o primeiro videoclipe da minha carreira, gravado na Argentina pelos diretores Juanito Jaureguiberry e Picky Talarico, com referências dos anos 20, Marlene Dietrich, noir, latin chic, contemporâneo”
Añorado Encuentro
“Conheço e gosto dessa canção há alguns anos e agora vejo que ela fez sentido no meu repertório. A letra fala sobre o momento do encontro tão desejado, quando se rompe o silêncio e a razão do coração prevalece. Essa música me remete às atmosferas das grandes orquestras dos anos 40, um alimento para o meu repertório. Nela, tenho novamente como convidado o trombonista Raul deSouza, do qual sempre fui fã e, neste trabalho, tudo se alinhou para ele estivesse presente. O arranjo é de Pepe Cisneiros”
Assum Preto
“Antes de iniciarmos a gravação, descrevi aos músicos Daniel Oliva e Fábio Sá o que meus olhos viam: era fim de tarde no sertão, o chão seco, a terra craquelada, o árido e, ainda assim, tudo em volta era só beleza. O céu avermelhado, as árvores sentidas, o silêncio e, no centro de tudo, no meio do nada, o assum preto descrevendo sua consciência. Gravamos a música de uma só vez e foi um dos momentos mais mágicos do disco. Valeu o primeiro take”
Idilio
“Significa uma grande paixão, um sonho, uma fantasia, uma ilusão. Refere-se a uma forma literária de poema lírico, de tema bucólico de natureza descritiva, dramática, épica ou lírica. Definiu o nome do álbum”
Deixa que Amanheça
“Conheci na voz de Emilinha Borba, grande intérprete brasileira. Reunimos uma turma da pesada do chorinho. Luizinho 7 cordas fez o arranjo. Uma delicada e jocosa forma de pedir a alguém que fique um pouco mais”
Como Duele Perderte
“Esta canção foi gravada com Emiliano Castro, grande violinista paulista da nova geração de músicos. Sua letra é muito bonita. Fala da dor de amor e da resiliência inconformada. Da vida diária sem o ser amado, do desejo, do grito do silêncio, da sinceridade do frio, da incredulidade de como pode ter tudo sido deixado para trás. Ainda assim, é doce. Não é triste. Talvez, docemente triste como, às vezes, a vida se apresenta”
Voy a Guardar Mi Lamento
“Conheci esta música numa versão em português através do Pupillo e descobri a letra em espanhol. Pedi a ele que fizesse o arranjo meio Tijuana, poeira na boca, Tarantino”
Propriedade Particular
“Nessa música do Lulu Santos, chamei a melhor turma do choro tradicional para dar o recado. Arranjo do mestre Luizinho Sete Cordas”
Tu me Acostumbraste
“Essa música foi gravada por grandes intérpretes, e adoro a interpretação do Armando Manzanero, um dos maiores boleristas do mundo. Pedi carona em suas asas. Trombone luxuoso do grande maestro Raul de Souza”.
Comentários